Novembro 09 2010

BOLETÍM CULTURAL

 CATINA MUNDI

  Boletim de letras, ideias, diálogos e crítica 

  Casa México- Aljuriça (Portugal)

   Casa de Mexico, casa de la cultura, donde los libros son la verdadera Universidad.

  (O primeiro Boletim electrónico publicado na Freguesia de Cadima para o Mundo)

 

 

             

…Para las niñas y  niños de Portugal, México, Costa Rica,  Hispanoamérica e America Portugueza es esta publicación mensual…

* As quadras humaníssimas do poeta Aleixo abrem as páginas deste boletim

* Porque o mundo me empurrou/ Caí na lama, e então/ Tomei-lhe a cor, mas não sou/ A lama que muitos são.                       ( António Aleixo)

“ Há tantos burros mandando/ Em  homens de inteligência/ Que as vezes fico pensando/ Que a burrice e uma ciência “    ( Antonio Aleixo )

Arre burro, arre burro, arre burro……………. 

“ Ao refugiar-me nos livros aprendi a fugir do mal sem o experimentar”

                                                                              Camilo C. Branco

*“Procurando o bem para os nossos semelhantes encontramos o nosso”

                                                                               Platão

 

                           

PUBLICAÇÃO  MENSAL, em  PORTUGUÊS e CASTELHANO,  QUE TEM  COMO  OBJECTIVO A PUBLICAÇÃO DE TRADUÇÕES DE TEXTOS DE AUTORES  PORTUGUESES, CASTELHANOS E LATINO-AMERICANOS, RESENHAS DE PUBLICAÇÕES RECENTES  E PASSADAS E NOTÍCIAS SOBRE EVENTOS CULTURAIS D’AQUÉM E D’ALÉM MAR.  (GANDRASMEXICOCOSTARICA.BLOGS.SAPO.PT)

Presentación

Boletín de periocidad mensual  aparece en septiembre de 2009  como fruto del amor por las letras luso-mexicanas. El objectivo esencial de Casa  México  es coadyuvar  en la promoción y en la difusión de las literaturas clásica y contemporânea.  Dicha publicación llegara a los cuatro rincones del mundo via air mail e  InterNet

 

 

 

 

Catina Mundi recorda Matilde Rosa Araújo, a escritora que revestiu as páginas dos seus livros com perfume de rosas silvestres para as crianças dos quatro cantos do mundo.(1921-2010 )

 

Nunca é tarde para prestar homenagem a quatro ilustres  e talentosas figuras do nosso País  que deixaram marcas no México. São elas: João RodriguesCabrilho ou Juan Rodriguez Cabrillo, Beatriz Costa, Fidelino de Souza Figueiredo e Joaquim de Carvalho Montezuma

 

Editorial

 

SOMOS UNS POBRES DIABOS… QUANDO  PODEMOS SER UMA SEGUNDA SUISSA

 

“ Governar uma Familia e quase tão difícil quanto governar todo um reino”      Montaigne

Num futuro próximo Portugal poderá ter a sua população provinciana a morrer de fome como já acontece  em quase todos os países da África Central e da América Latina, devido às drásticas medidas de austeridade propostas pelo governo de Sócrates  a-causa da grave crise financeira internacional.

Somos um pequeno reino com oito séculos de História e milhentas estórias gravadas em papel desde os descobrimentos até aos nossos dias; e para as contar com maestria  irónica-erudita temos o Prof. Doutor José Hermano  Saraiva.

Não fiquem dúvidas de que Portugal é o país mais atrasado e pobre da U.E., e a igualdade de oportunidades é apenas um mito. Quem não tiver “cunhas” nunca levantará cabeça nem terá um bom emprego. Os filhos dos pobres terão apenas um caminho a seguir para  fugir da miséria: emigrar para  países ricos, cujas sociedades são mais igualitárias, prósperas  e cultas.

De que nos vale ter uma Democracia participativa se na realidade dos factos sociais somos um país mais típico do chamado Terceiro Mundo do que de um país desenvolvido da Europa meridional. Salazar desejava que o povo não devia, não precisava de aprender a ler, e apenas  saber contar  até dez. Logo a seguir ao 25 de Abril de 1954, os governos provisórios e eleitos por votos do Zé povinho deveriam ter-se preocupado em dar a toda a população um ensino  de bom nível para alfabetizar , preparar e qualificar toda uma população analfabeta e demi-analfabeta. Um país sem gente educada e preparada nunca sai da sepa torta…Por isso é que os governos dos países nórdicos europeus gastam mais dinheiro em educação  do que em auto-estradas , tgvs e aeroportos.Eles sabem que garantir um boa educação  a todos os seus cidadãos cria bem-estar, riqueza e igualdade de oportunidades. A Democracia portuguesa ainda não amadoreceu.  A imaturidade política não permite que tenhamos uma democracia madura como a que sentem e vivem os povos dos países ricos da U.E.

Se fôssemos um país organizado, desenvolvido, preocupado com os valores morais e culturais, seriamos, sem dúvida, uma segunda Suissa. No século XVIII, a Suissa era mais pobre que Portugal, e em pouco mais de duzentos anos tornou-se uma potência económica. A sua principal economia é o sector financeiro, o  turismo e a indústria relojoeira. Depois vêm os productos lácteos da Nestlé e a construção de motores diesel para petroleiros, navios de cruzeiro e iates. Portugal tem todas as condições naturais e patrimoniais para ser uma super potência em turismo. Depois temos o mar para explorar, vasta apenas usar a cabeça e criar recursos tecnológicos apropriados para tirar proveitosos proveitos da nossa imensa costa  e do fundo do mar.

Conclusão: Portugal tem mesmo que apostar na exploração do mar e do turismo para que não caia na bancarota . Se os nossos políticos não lutarem  futuramente por construir um país culto, dinamico, desborucra  tico,  cairemos, certamente, no abismo. Neste momento habitamos um jardim onde so crescem pragas.

 

    Um Pequeno Comentário

 

Beatriz Costa , a saloia que nasceu para o teatro, lutou em Lisboa para ganhar o pão de cada dia como criada de servir. Sentiu a dor de ter uma ideia e de não a poder  exprimir. Sentia a tentação de brincar com bonecas e o desejo de alcançar o sonho que a aquecia e a inquietava. Os saudosos actores como Vasco Santana, Ribeirinho  e Raul Solnado falam-nos dela como duma criatura  que mantém a frescura, a sinceridade e a espontaneidade dum temperamento que acima de tudo a identifica como uma saloia de génio e figura. Graças ao seu talento, que a impôs  subitamente à admiração do público luso e brasileiro, conseguiu conquistar a celebridade, a fortuna e o direito a ser “cidadã do mundo “.

 

 

 *   Beatriz Costa gostava muito de burros, coleccionava burrinhos de porcelana

 

 * A cantar, beatriz Costa dizia que os burros( asnos ) tem mais valor que muitos senhores engarvatados e casmurros. Essa é que é essa, Eça!

 

 *  Beatriz Costa podia ter sido uma actriz de fama mundial , como a mexicana Maria Felix, se tivesse nascido em Paris ou Nova York, em vez de ter nascido na Charneca do Milharado, hoje Charneca da Aldeia da Roupa Branca. Maria Felix, famosa actriz mexicana dos anos 50, nascera em berço de ouro, por isso, foi educada em bons colegios e cedo pode mostrar o seu enorme talento artístico. Mas há uma grande distância em matéria de carácter: beatriz Costa era saloia e a Maria Felix era Bórgia...

 

                                                      

                                                  *************

 

  (...) Conhece políticos e tunantes, anarcas, fachos, chuchas e comunas, seres excepcionais e canalhas de coturno alto, reis a sério, com ceptro, trono e coroa; e reis de ópera-bufa.(...) Logo após a legalização dos partidos, foi frequentemente convidada, pelos dirigentes de um deles, a participar em reuniões, comícios, paleios. Não estava, nem está nessa.

(...) É uma mulher imprevisível e imponderável. Para quem possui da vida uma noção geométrica, quadriculada, programada e (afinal) inerte.

 

(...) Fala, gesticula, mexe, remexe. tremexe, ri, gargalha, olha, reolha, treolha. É maliciosa, mete palavrão pelo meio, conhece meio mundo e o outro, cumprimenta toda a gente, uma festa, um festim permanente, um alvoroço que recusa consumir-se nas labaredas das aparentes inutilidades."

 

Quando se retirou da vida artística decidiu escrever livros biográficos «Sem Papas na Língua», 1975 e «Quando os Vascos eram Santanas», 1977. Figura acarinhada e querida em todo o país. Divertida e risonha, manteve sempre o seu ar irreverente e um humor saudável. Mafra homenageou-a dando o seu nome ao Teatro Municipal Beatriz Costa. Os filmes em que é vedeta são constantemente exibidos na RTP Memória com enorme sucesso de audiências. Uma saloia que teve o privilegio de estudar  em La Sorbonne, Paris.  Casou com Edmundo Gregorian poeta,escritor  e escultor brasileiro que lhe deixou a sua fortuna.Deu três voltas ao mundo e visitou os museus mais famosos. Estranho que tenha vivido o inverno da vida no luxuoso Hotel Tivoli de Lisboa e não num rústico palacete na sua Charneca do Milharado, Malveira.

 Livros publicados pela Editora Europa-America

 

Beatriz COSTA, "Sem Papas na Língua" ,

 Beatriz COSTA, "Quando os Vascos eram Santanas " ,

Beatriz COSTA, "Mulher Sem Fronteiras" ,

Beatriz COSTA, "Nos Cornos da Vida"

Beatriz COSTA, "Eles e Eu"

Beatriz COSTA, Obra inacabada

  • Casa México tem todos os livros da B. Costa, menos um : “ Quando os Vascos Eram Santanas”

 

O MITO DA FRANJA

 

 "Sou uma cara de boneca de loiça num corpo de boneca de trapos."

 "Sou uma criatura estruturalmente alegre, desempoeirada, sensível ao bem que me façam e indiferente ao mal que me queiram."

 "Vim do povo e, artisticamente, ao doce contacto dele tenho vivido. Se de todas as classes me afluíram estímulos e aplausos, os daquela de que sou filha são os que mais me consolam, fortificam e envaidecem."

 "Sou uma mulher que lutou e conhece o pão que os oportunistas amassam. O que vale é que sou de boa cepa e fui amamentada a pão de milho e tive a água limpa do rio da minha avó." ( B. Costa )

 

 Link da musica da revista à portuguesa Arre Burro Beatriz Costa :http://www.youtube.com/watch?v=dYxcmCSUlLY

 

 

 Palácio Bellas Artes de Mexico D.F.                             * Palacio Presidencial Cidade do Mexico

 

 

Fidelino de Figueiredo (1889-1967) foi um intelectual de ponta da cultura portuguesa no século XX que, nos últimos tempos, andava um pouco esquecido. Foi para tirá-lo de um injusto limbo que veio à luz Fidelino de Figueiredo e a crítica da teoria literária positivista, de José Cândido de Oliveira Martins, professor da Universidade Católica Portuguesa, de Braga, publicado pelo Instituto Piaget, de Lisboa. Poucos intelectuais portugueses e brasileiros terão tido a sorte de receber a respeito de sua obra um estudo tão alentado quanto este de Oliveira Martins a respeito de Fidelino de Figueiredo.

Autor de A épica portuguesa no século XVI (Lisboa, IN-CM, 7ª ed., 1987), História de literatura clássica, História da literatura romântica e História da literatura realista, entre outros livros de uma obra extensa e significativa, Fidelino cedo distanciou-se do Positivismo dogmático de Teófilo Braga (1843-1924), que então dominava o cenário literário português, e do filologismo erudito de Carolina Michaëlis de Vasconcelos ((1851-1925).

Leitor de Benedetto Croce (1866-1952), de quem traduziu e prefaciou em 1914 o livro Breviário da Estética, Fidelino rompeu com o modelo da razão positivista, “assente no determinismo mecanicista dos fatores biológicos, sociais e históricos, na acumulação elefantíaca de fatos e numa estéril erudição”, como afirma o professor Vitor Aguiar e Silva, da Universidade do Minho, no prefácio que escreveu para esta obra que, originariamente, constituiu a tese de doutoramento que o professor Oliveira Martins apresentou em 2003 à Faculdade de Filosofia da Universidade Católica Portuguesa.

II

Ainda jovem, Fidelino fundou e dirigiu a Sociedade Portuguesa de Estudos Históricos e a Revista de História, que circulou em Portugal de 1912 a 1928. Exilando-se na Espanha em finais da década de 20 por razões políticas, foi contratado como professor de Literatura pela Universidade Central de Madri. Já na década de 30, depois de anistiado e de regresso a Portugal, celebrizou-se nas atividades de conferencista e professor convidado de Literatura em várias universidades européias e norte-americanas. Espírito cosmopolita, ensinou também na Universidade da Califórnia (Berkeley), na Universidade Nacional do México e, no começo da década de 1960, na então recém-criada Universidade do Brasil, em Brasília.

  • Resumo de autoria de Adelto Gonçalves, escritor brasileiro

 

Do Tempo e dos Homens

 

O filho Joaquim Montezuma de Carvalho, também advogado, falou ao JANEIRO do legado do seu pai – “um homem das letras, um filósofo que abominava a política”. Nascido na freguesia de Almedina, em Coimbra, no dia 21 de Novembro de 1928, Joaquim Montezuma de Carvalho licenciou-se em Direito na Universidade de Coimbra. No final dos anos 50, o jovem advogado partiu para Angola. Começou por ajudante de conservador em Nova Lisboa, cidade onde fez carreira nas conservatórias. Chegou a conservador do registo civil e comercial de Lourenço Marques, onde casou com Maria Júlia Neto da Silva, acumulando funções na magistratura. O filho único recorda, desde tenra idade, o gosto do pai pela escrita, pelos escritores e pela literatura, que considerava universal e una. “Não era pessoa de perder tempo a ver televisão ou a ir ao cinema. Os seus temas de conversa à hora da refeição eram um regresso aos escritores”, recorda. Amigo do poeta Jorge Luis Borges, que conheceu na Argentina, do escritor colombiano Gabriel García Marquez e do autor mexicano Octavio Paz, ambos prémios Nobel da Literatura, e de Aquilino Ribeiro, o pensador Joaquim Montezuma de Carvalho gostava de se isolar no meio dos livros, queria ter o essencial e era um homem de gostos muito simples: “O meu pai não se interessava pelas questões monetárias, apesar de ser advogado como eu”. O filho adianta: “Quando ele era novo teve autismo e fechava-se na biblioteca do meu avô, o filósofo e historiador figueirense Joaquim de Carvalho”. De regresso a Portugal, em 1976, exerce advocacia em Lisboa e dá início a uma carreira de escritor e de divulgador da cultura portuguesa. Os seus escritos, que versam sobre literatura, filosofia e história figuram principalmente no estrangeiro.
Colaborador com aprofundados ensaios do «das Artes das Letras» de O Primeiro de Janeiro desde 1999, “todas as segundas-feiras, pedia-me para o tirar da Internet”, recorda. Joaquim Montezuma de Carvalho despertou o interesse do filho por diversos autores. “Eu gostava muito de Júlio Verne, de Camilo Castelo Branco, de Eça de Queirós e ele apresentava-me os grandes autores mundiais”, partilha, lembrando que trocavam frequentemente impressões sobre o que estava a escrever.
Autor de vasta obra no campo do ensaio, Joaquim Montezuma de Carvalho foi distinguido com a Medalha José Vasconcelos, no México, atribuída pela Frente de Afirmación Hispanista, com sede em Nova Iorque, pelo volume «O Panorama das literaturas das Américas». Por ser autor de uma vasta bibliografia consagrada às culturas portuguesa e hispânica, foi designado, em 1999, Cavaleiro da Ordem de S. Eugênio de Trebizonde de Espanha.

 

            Octavio Paz Lozano (Cidade do México, 31 de Março de 1914 — Cidade do México, 19 de Abril de 1998) foi um poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano, notabilizado, principalmente, por seu trabalho prático e teórico no campo da poesia moderna ou de vanguarda. Recebeu o Nobel de Literatura de 1990. Escritor prolífico cuja obra abarcou vários géneros, é considerado um dos maiores escritores do século XX e um dos grandes poetas hispânicos de todos os tempos. [1]

Passou a infância nos Estados Unidos, acompanhando a família. De volta ao seu país, estudou direito na Universidade Nacional Autônoma do México. Cursou também especialização em literatura. Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais. Viveu também em Paris, no Japão e na Índia.

Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano. Quando morava em Paris, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Em sua criação, experimentou a escrita automática, tendo praticado posteriormente uma poesia ainda vanguardista, porém mais concisa e objetiva, voltada a um uso mais preciso da função poética da linguagem.

Publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933. Seu segundo libro “ El Laberinto de la Soledad”. Eduardo Lourenço publicou, há anos, “ O labirinto da Saudade”

Hoje, porque nenhuma das tradições anteriores consegue explicar o fenómeno do nacionalismo que por todo o lado pulula, volta a ser aceitável falar-se de identidade. Livros como Imagined Communities (4) e The Invention of Tradition (5) entram nas bibliografias de toda a gente e não me admira que um outro, recentemente publicado, Jewish Identity (6), encontre o mesmo eco, a julgar pelo calibre do elenco dos seus colaboradores, que inclui Hilary Putnam e Joseph Margolis. Mas a lista recente de livros sobre esta problemática é enorme (7). As razões deste ressurgimento prendem-se em parte, parece-me, com a necessidade de preencher o vazio deixado pelo pós-modernismo. A fragmentação que se operou nas então sólidas visões do mundo – cristã, marxista, liberal – provocou uma espécie de tentativa de salvamento em que cada indivíduo procura agarrar-se aos grupos com os quais sente alguma identificação. Nos Estados Unidos, por exemplo, o género e a etnia (no caso dos negros, a raça) surgiram como potentes focos de identidade.

Nesta comunicação, porém, cingir-me-ei ao problema teórico da identidade, que, como acontece com o autor e o crítico do livro atrás citados, é frequentemente reduzido a esse outro, famigerado, do carácter nacional, o qual, diga-se, ao menos no meu entender, deveria ser substituído pelo conceito de características culturais. Mas a justificação dessa alternativa já a fiz noutro lugar (8).

O filósofo inglês Thomas Reid, ao reflectir sobre o problema da identidade, num livro publicado em 1785, e na sequência do que, um século antes, propusera John Locke, escreveu:

«Se me pedem uma definição de identidade, confesso que não posso dar nenhuma; é uma noção demasiado simples para admitir uma definição lógica, mas não consigo encontrar palavras para expressar as diferenças específicas entre este e outros conceitos, embora eu não corra o perigo de confundi-lo com outro qualquer» (9).

David Hume sentiu também dificuldades semelhantes a ponto de, contra a sua própria experiência, ser levado a negar a possibilidade de se falar inteligentemente sobre o conceito de identidade pessoal. No terceiro volume do seu Treatise of Human Nature, ao voltar a reflectir, num apêndice, sobre as suas próprias posições explanadas no primeiro volume dessa obra, afirma:

«Mantive algumas esperanças de que, por deficiente que pudesse ser a nossa teoria do mundo intelectual, ela estaria livre de contradições e absurdos, que parece espreitam qualquer explicação que a razão humana possa dar do mundo material. Mas após uma revisão mais cuidadosa da secção sobre a identidade pessoal, eu encontro-me num tal labirinto que, devo confessar, não sei nem corrigir as minhas anteriores opiniões, nem torná-las consistentes» (10).

Trezentos anos depois de Locke, os problemas conceptuais continuam insolúveis. Derek Parfit confessa mesmo que "não há resposta para perguntas sobre identidade" (11).

Se é esta a situação para o problema da identidade pessoal ou individual, que dizer então da identidade colectiva? O labirinto de que fala Hume é a única imagem que me ocorre. Foi, aliás, essa mesma que tomou Octavio Paz quando, sem qualquer ligação com os filósofos ingleses acima mencionados, a considerou, na sua reflexão sobre identidade mexicana, "uno de los simbolos míticos más fecundos y significativos" 12, a ponto de usá-la no próprio título do seu famoso livro – El Labirinto de la Soledad.

 

ORIENTALISMO PORTUGUÊS: SINOFILIA, SINOFOBIA E ACADEMICISMO.

 

    Há quem afirme que os portugueses criaram o primeiro orientalismo europeu a partir do século XVI. Não é crucial para este trabalho evocar autorias, mas na verdade as navegações marítimas portuguesas permitiram a construção de um império, não só territorial, geográfico, comercial, mas também cultural e imagético: o Oriente Português. Do contacto com culturas tão diferentes como a Índia ou a China, resultou uma construção da visão do Outro ao longo dos séculos.

            De Junho de 1998 a Dezembro de 1999, a Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses organizou um ciclo de exposições intitulado “Memórias do Oriente”, na cidade do Porto, com o propósito de comemorar a primeira viagem à Índia. As exposições intituladas “Os Construtores do Oriente Português”, “Os Espaços de um Império” e “O Orientalismo Português” tinham como objectivo mostrar a apropriação do Oriente pelo olhar luso que se manifestou, ao longo dos tempos, nas diversas artes, na política, na vida quotidiana. As exposições, em especial a última, realçam o valor dos objectos presentes na amostra como verdadeiros documentos sobre a história do Orientalismo Português, apelidando-os “sinais de um oriente sucessivamente imaginado pelos portugueses”.

            Dessa exposição resultou um catálogo muito rico em registos fotográficos de objectos de arte e em textos explicativos da temática: O Orientalismo em Portugal - Séculos XVI-XX (1999). Um dos textos do catálogo apresenta-nos uma perspectiva diacrónica do Orientalismo Português. António Manuel Hespanha fala de um modelo português de características próprias, enraizado no empreendimento da descoberta de rotas marítimas e consequente motivação para a abertura de outros espaços comerciais. Com o desenrolar das relações diplomáticas e comerciais, o Império Português foi-se construindo, à semelhança de outros impérios europeus, embora com uma prática de poder diferente das restantes:

 

Era antes uma rede não monótona de relações políticas, estabelecida sobre redes de relações políticas pré-existentes, deixadas subsistir como elementos de auto-governo, sujeitos a um controlo eminente, muitas vezes quase diplomático, da coroa portuguesa (p. 18, Hespanha).

 

            O facto de a construção do Império Português estar também ligada a uma motivação claramente missionária, que se manifestou na preocupação e vontade de conhecer as outras línguas, religiões e costumes, levou a uma certa proliferação na época de diversos documentos escritos, certamente enriquecedores para a relação com o mundo oriental, sejam eles descrições militares, relatos comerciais ou literatura de viagens.

            Já no século XVIII, em pleno Iluminismo, o “entusiasmo sinófilo” é anulado pela defesa da universalidade dos valores humanistas europeus. O fortalecimento de um sentimento de superioridade tecnológica, económica e política da Europa fez com que o Oriente passasse a ser visto segundo duas abordagens: como “campo de observação” e como “campo de expansão”. Esta diferença de perspectiva, etnocêntrica e minimizadora do Outro, abriu caminho para o projecto colonizador por parte das potências europeias.

            No século XIX, o Orientalismo Português manifesta-se quase exclusivamente através de certos poetas simbolistas, como, por exemplo, Camilo Pessanha e António Feijó. Entretanto, a Conferência de Berlim (1885-86) leva Portugal a radicalizar as suas ligações com as colónias, no sentido de impor uma maior rigidez de ocupação territorial e apropriação política, especialmente em África. Assim as manifestações orientalistas reduzem-se, para além de alguns traços orientalistas na poesia simbolista, a uma presença nas artes decorativas. Até que no Estado Novo há uma revalorização das terras do Oriente, não para divulgar a cultura oriental per si mas para realçar as qualidades do poder colonizador e fortalecer a imagética imperialista.

            Por fim, e ainda a partir do texto de Hespanha, enuncia-se um “Orientalismo Pós-Imperial” que se revela a quatro níveis: na presença viva (e revivadora de imagens) das comunidades indiana e chinesa nas cidades, segundo o trabalho levado a cabo pela Comissão dos Descobrimentos desde 1989, na presença de Macau e sua imagem de “a última pérola do império” e na “questão de Timor”.

O autor reforça ainda a existência de uma afectividade atemporal ao corpus “Oriente” do seguinte modo:

 

O Oriente continua a ser, ainda, uma memória histórica dourada. Não tanto a memória de feitos bélicos heróicos, com os quais o gosto dos tempos não se compadece tanto, mas de contactos pessoais e culturais, suaves e estruturantes. Ou seja, o Oriente funciona como o lugar por excelência (talvez com o Brasil) das excelências da nossa acção colonizadora – desse particular jeito (tão causticamente ironizado por Chico Buarque de Holanda no Fado Tropical) de governar pelo amor. (p. 32, Hespanha)

           

            Encontrámos igualmente a publicação de uma pesquisa sobre a presença do Oriente mítico na literatura portuguesa do final do século XIX e respectivas manifestações orientalistas. Falamos da obra de Manuela Delgado Leão Ramos (2001) sobre António Feijó e Camilo Pessanha.

Efectivamente a literatura é um dos melhores filtros de imagens, discursos e conceitos sobre o Outro. Neste caso os poetas António Feijó, responsável pelo Cancioneiro Chinês, e Camilo Pessanha, poeta da Clepsydra, são objecto de uma análise sobre as respectivas expressões orientalistas. Mas este estudo contempla, de igual modo, uma reflexão crítica sobre os pilares fundadores do orientalismo e sua história.

Manuela Ramos partiu da sua questionação sobre a (in) existência de uma tradição orientalista portuguesa para construir uma pesquisa sólida e muito bem documentada relativa aos inúmeros, mas desconhecidos e desvalorizados, testemunhos dessa tradição.

Partindo de uma reflexão sobre o conceito de orientalismo defendido por Edward Said e uma contraposição assumida por Raymond Schwab (1950) e John Mackenzie (1995), a autora prepara-nos para uma atitude aberta, mas não menos crítica, face à problemática da construção orientalista de um Outro (termo, segundo ela, vazio de significado por uso excessivo e superficial). Este estudo conta com referências históricas valiosíssimas para a definição de um percurso orientalista nacional. Relatos de viagens, relatórios e documentos oficiais, textos literários, trocas epistolares, toda uma panóplia de registos escritos apresentados pela autora são testemunhos de um estudo sinólogo português já de longa data.

Manuela Ramos dá-nos a conhecer vários exemplos de imagem construída da China que, de acordo com diferentes momentos históricos e políticos, ora é positiva ora é pejorativa. Somos então confrontados com uma série de autores e seus textos que vão do século XVI ao XIX. Interessante é, sem dúvida, a incursão no mundo da criação literária de Camilo Pessanha e António Feijó. Para além destes, Eça de Queirós e Wenceslau de Morais, escritores possuidores de uma outra clareza intelectual que lhes permitiu um discurso contrário ao da dominante eurocentrista.

Falar de imagens da China na nossa literatura serviria, certamente, um excelente exercício académico, mas essa descodificação ou identificação não é a abordagem prioritária para este estudo. No entanto, podemos recuperar algumas conclusões quanto ao olhar português sobre a China no século XIX. Num deles aferimos que “a imagem da China sofre em Portugal o mesmo processo que no resto da Europa: a passagem de uma sinofilia a uma sinofobia.” (p. 42).

Da aclamação da grandiosidade da civilização chinesa, os escritores portugueses passam a apontar como características negativas dessa cultura tudo o que não se rege segundo os padrões europeus, quer dizer tudo o que lhes é diferente. A China tem os seus períodos de convulsão e confrontação, os quais serão interpretados maleficamente, abrindo assim caminho para uma atitude claramente eurocêntrica. Como exemplo temos uma transcrição do livro Os Chins de Macau (1867) de Manuel de Castro Sampaio:

 

Os chins têm geralmente uma constituição forte, mas mediana estatura e pouca robustez. São muito cautelosos e desconfiados, e ao mesmo tempo pacíficos e humildes. Dotados de sagacidade e astúcia, estão sempre dispostos a enganar. … Contudo nestes últimos tempos a presença dos europeus na China tem-lhes feito um grande bem moral, porque já hoje os chins em grande parte estão desenganados dos muitos erros em que viviam. (p. 43, Ramos)

 

Do deslumbramento passa-se ao desencanto sobre a China e este é um processo obviamente complexo, ao qual Manuela Ramos aponta como eventuais causas o progresso técnico e industrial crescente na Europa – que reforça uma ideia de estagnação do Império Celeste ao não acompanhar a evolução e o expansionismo imperialista ocidental, em particular o britânico, que começaria por moldar discursos desvalorizadores do Outro, justificativos de uma intervenção ou mesmo de uma apropriação.

De igual modo, é-nos dado a conhecer a outra face da moeda através do livro de Ignácio de Andrade, Cartas Escriptas da India e da China (1843). Nessa obra, o autor acusa directamente o poder político inglês de ser o responsável pela criação e divulgação de uma imagem depreciativa dos chineses, devido a razões históricas e diplomáticas:

 

O carácter dos ingleses é tão avesso do que têm os chineses, que desde Lord Anson até Lord Amhers, isto é, de 1741, época em que Anson entrou no rio Tigre, até 1816, quando Amhers chegou a Pequim, os bretões foram sempre repelidos; por isso tomam vindicta, descrevendo a China com as mais negras cores. (p. 46, Ramos)

 

Esta denúncia tão acutilante faz-nos pensar que o orientalismo talvez não tenha sido apenas baseado numa relação de dominação intelectual e política, como defende Edward Said, mas também num propósito de conhecimento e entendimento mútuos. Manuela Ramos reforça exactamente a existência de um orientalismo positivo ao explorar obras de escritores como Wenceslau de Morais e Eça de Queirós.

De facto, o registo irónico e prazenteiro de Eça de Queirós apresenta-nos uma visão contrária e crítica da hegemonia ocidental. Ora leiamos:

 

Os países orientais são feitos para enriquecer os países ocidentais – e por isso com os Egiptos, os Tunis, os Tonquins, as Conchinchinas, os Siãos (ou Siões?) se fazem para a Inglaterra e para a França boas e pingues colónias. Eu sou civilizado, tu és bárbaro – logo dá cá primeiramente o teu oiro, e depois trabalha para mim. A questão está toda em definir bem o que é ser civilizado. Antigamente pensava-se que era conceber de um modo superior uma arte, uma filosofia e uma religião. Mas como os povos orientais têm uma religião, uma filosofia e uma arte, melhores ou tão boas como as dos ocidentais, nós alteramos a definição e dizemos agora que ser civilizado é possuir muitos navios couraçados e muitos canhões Krupp. Tu não tens canhões, nem couraçados, logo és bárbaro, está maduro para vassalo e vou sobre ti! (Cartas de Paris, s.d., Ramos).

 

 Extraordinária a clareza deste diagnóstico do discurso intelectual e político da altura, o qual poderia ser, sem maiores dificuldades, transposto para o século XX.

Outro contributo para valorização das culturas não-ocidentais e para o combate ao imperialismo militar, económico e cultural europeu encontra-se na obra de Wenceslau de Morais, uma voz dissidente do poder político nacional. Manuela Ramos valoriza a seguinte passagem de A Vida Japonesa:

 

Quando se pensa atentamente na educação, na civilização ocidental, que os países europeus que têm colónias, impõem aos indígenas de tais colónias, havemos de convir que, por um explicável interesse do bem próprio, o que elas principalmente impõem, é a escravidão, é a repressão do natural desenvolvimento dos princípios éticos dos mesmos indígenas. A orientação dada ao trabalho, aos costumes, à moral, à religião, tudo tão diferente daquilo que germina na sentimentalidade dos povos submetidos, não pode classificar-se de outro modo. (p.79, Ramos)

 

No entanto, a maioria dos autores portugueses pautaram os seus livros por generalizações e reproduções de estereótipos negativos dos chineses (veiculados por escritores europeus) que resultaram em deformações da representação do povo chinês.

 

Após esta breve resenha sobre a pesquisa de Manuela Ramos, que poderá ser dito sobre um orientalismo português actual? Existe? Não existe? Se recuperarmos o sentido original do termo, e não a acepção negativa de Said, podemos afirmar que há uma tendência crescente para uma atitude de disponibilidade, curiosidade e investimento intelectuais que se manifesta, entre outros, nos meios universitários. Para além dos conhecidos Instituto Cultural de Macau, Centro Científico e Cultural de Macau e a Fundação Oriente, no âmbito da iniciativa privada, constatamos várias iniciativas académicas que abrem caminhos para pesquisa, investigação e divulgação de culturas orientais, entre elas a chinesa.

São vários os Centros de Estudos que existem no país. Acreditando que nos falham certamente alguns, existem em Lisboa o Centro de Estudos Chineses no Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a Unidade de Estudos Asiáticos no Instituto Superior de Economia e Gestão e o Centro de Estudos Africanos e Asiáticos do Instituto de Investigação Científica Tropical. Temos igualmente outros centros que se dedicam a questões intrínsecas ao contacto entre culturas diferentes, como, por exemplo, o Centro de Estudos de Migrações e Minorias Étnicas da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova, o Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais da Universidade Aberta e o Centro de Estudos Multiculturais da Universidade Independente.

Indo para Norte, encontramos na Universidade de Aveiro o Centro de Estudos Asiáticos que administra um Curso de Mestrado em Estudos Chineses e na Universidade do Minho temos o Centro de Línguas e Culturas Orientais.

Serão estes os sintomas de uma postura positiva, intelectualmente produtiva e culturalmente estimulante, perante a alteridade do Outro? Estamos certos de que sim, que o estudo, a descoberta, a questionação, a reflexão levar-nos-ão a uma outra capacidade de comunicação e interacção entre grupos, sejam eles culturais, étnicos, linguísticos, políticos, religiosos ou económicos.

 

Napoleao Bonaparte disse: “ Quando a China despertar o mundo estremecera”. A Republica Popular da China e benemerita  com a corrupçao politica , e vai fazer o favor de comprar Titulos do Tesouro para salvar Portugal da banca rota. La chegara o dia em que Portugal será uma colónia de ferias para os chineses ricos como o fora  Cuba nos idos anos 60 para os norte-americanos.

Os Lusiadas são a Biblia de Camoes. Os Lusiadas são um poema de feitos extraordinários.

“ Sem olhos vi o mal claro

   Que dos olhos se seguiu:

   Pois cara sem olhos viu

   Olhos que lhe custam caro.

   De olhosnao faço menção,

   Pois quereis que olhos não sejam;

   Vendo-vos, olhos sobejam,

    Não vos vendo, olhos não são.”

 

Moita Flores, o presidente-escritor escalabitano, anda de porta em porta a pedir assinaturas( 100.000) para que os touros continuem a ser martirizados nas arenas ribatejanas para glaudio do Jet Set alfacinha.

 

Os Miscaros estão em vias de extinção nos pinhais da Gandara.

  • Santíssima ignorância!  Desde há muitíssimos meses que se estuda  a extinção  dos Governos Civis de Distrito, e não se faz nada de nada. O Governo Central que acabe, de uma vez, com esse tacho lamacento; e tambem que reduza o grupinho de Deputados na A.R. Os Governadores Civis são Figuras Decorativas que não servem para museus nem para fundações. Para nada servem.

 

O Mandarim de Eça de Queiroz já pode ser lido na Tailandia em língua Thai. 

Para saber noticias sobre Portugal na Asia consultar o Blog “ Portugal na Tailandia” 

publicado por luiscatina às 19:18

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