Agosto 14 2012

Boletim Cultural Catina Mundi 

 

 

  Boletim de letras, ideias, diálogos e crítica

  Casa México- Aljuriça (Portugal)

   Casa de Mexico, casa de la cultura, donde los libros son la verdadera Universidad.

  (O primeiro Boletim electrónico publicado na Freguesia de Cadima para o Mundo)

 

…Para las niñas y  niños de Portugal, México, Costa Rica,  Hispanoamérica e America Portugueza es esta publicación mensual…

 

* Porque o mundo me empurrou/ Caí na lama, e então/ Tomei-lhe a cor, mas não sou/ A lama que muitos são.                       ( António Aleixo)

“ Há tantos burros mandando/ Em  homens de inteligência/ Que as vezes fico pensando/ Que a burrice e uma ciência “    ( Antonio Aleixo )

 “ Ao refugiar-me nos livros aprendi a fugir do mal sem o experimentar”

                                                                              Camilo C. Branco

*“Procurando o bem para os nossos semelhantes encontramos o nosso”

                                                                               Platão

 "A leitura para mim sempre foi uma fonte de prazer, e gostaria que isso fosse uma coisa generalizada."      "Um país se faz com homens e com livros"

Monteiro Lobato

                           

PUBLICAÇÃO  MENSAL, em  PORTUGUÊS e CASTELHANO,  QUE TEM  COMO  OBJECTIVO A PUBLICAÇÃO DE TRADUÇÕES DE TEXTOS DE AUTORES  PORTUGUESES, CASTELHANOS E LATINO-AMERICANOS, RESENHAS DE PUBLICAÇÕES RECENTES  E PASSADAS E NOTÍCIAS SOBRE EVENTOS CULTURAIS D’AQUÉM E D’ALÉM MAR.  (GANDRASMEXICOCOSTARICA.BLOGS.SAPO.PT)

Presentación

Boletín de periocidad mensual  aparece en septiembre de 2009  como fruto del amor por las letras luso-mexicanas. El objectivo esencial de Casa  México  es coadyuvar  en la promoción y en la difusión de las literaturas clásica y contemporânea.  Dicha publicación llega a los cuatro rincones del mundo  por Internet.

 

 

MIGUEL TORGA

(Poeta e prosador - 1907-1995)

 

Rolando Galvão

Retrato de Miguel Torga

EU, PECADOR, ME CONFESSO DE SER CHARCO E LUAR DE CHARCO, À MISTURA...

QUANDO TUDO ACONTECEU

1907: Nasce Adolfo Correia da Rocha em S. Martinho de Anta (distrito de Vila Real). -1920: Emigra para o Brasil. - 1925: Regressa do Brasil. - 1927: Fundação da"Presença" em que colabora desde o começo. - 1928: Ingressa na Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra; Ansiedade, primeiro livro, poesia. - 1930:Deixa a "Presença". 1931: Pão Ázimo, primeiro livro em prosa. - 1933: Formatura em Medicina. - 1934: A Terceira Voz, prosa; passa a usar o pseudónimo Miguel Torga. - 1936: O outro livro de Job, poesia. - 1937: A Criação do Mundo - Os dois primeiros dias. - 1939: Abertura do consultório médico, em Coimbra. - 1940: Os Bichos. - 1941: Primeiro volume do DiárioContos da Montanha, que será reeditado no Rio de Janeiro; Terra firme, Mar, primeira obra de teatro. - 1944Novos Contos da MontanhaLibertação (poesia). - 1945: Vindima, o primeiro romance. - 1947:Sinfonia (teatro). - 1950: Cântico do Homem (poesia); Portugal. - 1954Penas do Purgatório (poesia) - 1958: Orfeu Rebelde, poesia. - 1965: Poemas Ibéricos. - 1981:Último volume de A Criação do Mundo. - 1993: Último volume do Diário (XVI). -1995: Morre Adolfo Correia da Rocha.

 

 

O HOMEM E AS ORIGENS

Fac simile do livro "Ansiedade". O autor não usava ainda o pseudónimo "Miguel Torga"

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Miguel Torga, António de Sousa, Afonso Duarte, Paulo Quintela e Vitorino Nemésio (foto de 1937)

 

Adolfo Correia da Rocha, que será conhecido por Miguel Torga, nasce em 12 de Agosto de 1907, em S. Martinho da Anta, concelho de Sabrosa, Trás-os-Montes. Filho de gente do campo, não mais se desliga das origens, da família, do meio rural e da natureza que o circunda. Mesmo quando não referidos, estão sempre presentes o Pai, a Mãe, o professor primário Sr. Botelho, as fragas, as serranias, a magreza da terra, o suor para dela arrancar o pão, os próprios monumentos megalíticos em que a região é pródiga.

Entra no Seminário, donde sai pouco depois.

Emigra para o Brasil em 1920. Trabalha na fazenda do tio, é a dureza da "capinagem" do café. O tio apercebe-se das suas qualidades. Paga-lhe ingresso e estudos no liceu de Leopoldina, onde os professores notam as suas capacidades.

Regressa a Portugal em 1925. Entra da Faculdade de Medicina de Coimbra. Participa moderadamente na boémia coimbrã. Ainda estudante publica os seus primeiros livros. Com ajuda financeira do tio brasileiro conclui a formatura em 1933.

A família é um dos pontos fulcrais da sua vida. O pai, com quem a comunicação se faz quase sem necessidade de palavras, é um dos fortes esteios da sua ternura, amor e respeito. Cortei o cabelo ao meu pai e fiz-lhe a barba.(...) Foi sempre bonito, o velhote... Recorda os braços do pai pegando pela primeira vez na neta, recém nascida. O mesmo amor em poemas dedicados à mãe. Por sua mulher e filha um afecto profundo, também.

Uma parcela de arrogância, um certo distanciamento dos homens, timidez comum aos homens vindos dos meios humildes:

Nem sempre escrevi que sou intransigente, duro, capaz de uma lógica que toca a desumanidade. (...) Nem sempre admiti que estava irritado com este camarada e aquele amigo. (...) A desgraça é que não me deixam estar só, pensar só, sentir só.

O desejo de perfeição absoluta e de verdade:

Que cada frase em vez de um habilidoso disfarce, fosse uma sedução (...) e um acto sem subterfúgios. Para tanto limpo-a escrupulosamente de todas as impurezas e ambiguidades.

Não dá nada a ninguém, diz-se. Imensas consultas gratuitas como médico, desmentem a atoarda. Não dispõe de recursos folgados, confidencia a alguns amigos. Compreende-se: por motivos políticos, a sua mulher, Profª. Andrée Crabbé Rocha, é proibida de leccionar e, ao longo dos anos iniciais, altos são os custos editoriais do que publica...

A ideia da morte e da solidão acompanham-no permanentemente. Desde criança mantêm-se presentes no corpo e no espírito. Dos vinte e cinco poemas insertos no último volume do Diário, cerca de metade evocam-nas. Não porque atinja já uma idade relativamente avançada ou sofra de doença incurável. Na casa dos quarenta e até antes, já o envolvem. Não se traduzem em medo, mas no sentido do limite. Criança ainda, uma noite, sozinho, (...) desamparado e perplexo, assiste à morte do avô. O que não será estranho à obsessão.

No enterro de Afonso Duarte, ao fazer o elogio fúnebre afirma que a morte purifica os sentimentos.

O homem é, por desgraça, uma solidão: Nascemos sós, vivemos sós e morremos sós.

Viajante incansável por todo o país e estrangeiro. Visita a China e a Índia já próximo dos oitenta anos. Pareço um doido a correr esta pátria e nem chego a saber por quê tanta peregrinação.

Os monumentos entusiasmam-no. Os Jerónimos, a Batalha e Alcobaça têm sentido na Alma da nação. Mafra é uma estupidez que justifica uma punição aos reis doiros que fizeram construir o convento. Os monumentos paleolíticos fascinam-no.

Sou uma encruzilhadas de duas naturezas. De variadíssimas, dirá quem bem o conhece...

Morre em 17 de Janeiro de 1995. Enterrado em S. Martinho da Anta, junto dos pais e irmã.

 

 
OS OUTROS
 

 

 

 

 

 

"Camões fez versos a martelo" diz Miguel Torga. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo? Consulta a Tábua Cronológica.

 

O relacionamento com as pessoas, ao nível artístico, literário ou qualquer outro, não é fácil. Mais difícil com personalidades ou pessoas com visibilidade pública, mais afável com os humildes.

Tem zangas com os amigos de tertúlia. Em regra não são ultrapassadas.

No exercício da profissão dá consultas médicas gratuitas. Perde-se em conversas com os doentes, sobretudo se de condição modesta ou da sua região.

Não dá autógrafos ou apõe dedicatórias nos seus livros, para que o leitor esteja inteiramente livre para julgar o texto.

Uma alta personalidade política queixa-se ao próprio escritor da recusa que teve. Compara-a com a melhor sorte de uma senhora por ambos conhecida. Responde que não tem que se admirar pois faltam-lhe os atributos de beleza e elegância da senhora... Sem qualquer malícia, pois não é dado a dizeres brejeiros.

Tampouco se presta a prefaciar obras de outros colegas de escrita, salvo eventuais excepções. A crónica coimbrã conta, talvez com os excessos habituais, que, solicitado por um novato, explica a recusa perguntando: pretende publicar a sua obra ou o meu prefácio?

Não mostra receio de criticar quem quer que seja, mesmo os divinizados. De Camões fala de versos feitos a martelo. Considera o título d’Os Lusíadas a expressão da nossa tacanhez e os versos mais ilegíveis do que os da Divina Comédia. Exprime, apesar disso, enorme admiração pelo vate e pela sua obra.

Atribui aos nossos bem pensantes de serviço a ausência da mais pequena dúvida.

A sua desconfiança e menos paciência com os intelectuais é bastante viva: converso até onde me vejo obrigado, (...) largo-o logo que posso e regresso a um convívio menos tenso e mais fecundo, (...) sem esperança nos letrados, (...) junto dos analfabetos encontro ainda o riso, a indignação, o espanto...

 

  A PÁTRIA É UM ÍMAN

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Capa de "a terceira voz", edição de 1934. O autor já utiliza o pseudónimo com que viria a ficar na história.

 

 

O Reino Maravilhoso de Trás-os-Montes, é um dos seus grandes amores. Sempre na sua alma viaja com ele, parece vê-lo em toda a parte. Surge a cada momento na sua prosa. Sempre enaltecida como terra de Deus e dos deuses.

Não sendo apenas dele, sê-lo-á apenas dos que queiram merecê-lo. Assim o diz emPortugal, onde faz um quadro de outro dos seus amores: o país.

Esta adoração conduz a excessos. No vizinho Minho mostra-se enfastiado com a presença permanente do verde. Desanimado, à procura de um Minho com menos milho, menos erva, menos videiras de enforcado. Encontra-o onde a relva dá lugar à terra nua, parda, identificada com o panorama humano. Ou seja: com o seu Trás-os-Montes natal.

Nesse seu torrão vê o que os outros não conseguem ver. Um paraíso onde basta estender a mão e logo se desentranha em batatas, azeite, figos, nozes. Um sem número de outras riquezas e mimos que nenhuma imaginação descreve.

Mas anos antes falara do Marão, que não dá palha nem grão, as crianças famintas a pastar ervas.

Reconhece que o estar bem jantado é condição para admirar a beleza da cor e do relevo dos cumes das serranias...

O exagero atinge níveis que só a simbiose da paixão com a poesia e os sem limites da genialidade explicam. As rixas entre os naturais que às vezes se agridem, (...) que parecem feras, resulta de uma exacerbação de puras e cristalinas virtudes...

Évora e os seus monumentos atraem-no vivamente. Ela sintetiza a diversidade dos povo anteriores, latinos, mouros e os outros..

O seu amor pela Pátria, um íman, surge linha a linha. Vai a Espanha, Verin e delicia-se do alto de um castelo a olhar Portugal.

Um tanto estranhamente aceita o conceito da multicontinentalidade, embora temperado pelo seu humanismo universalista. Mais tarde vinca as diferenças de privilégios entre as duas etnias.

Cada monumento, cada pedra, cada planície, o mar, a serra, desde que portugueses, são fervorosamente enaltecidos...

Um certo iberismo: a minha pátria cívica acaba em Barca de Alva, (...) a telúrica nos Pirinéus.

Não reflecte uma posição pela união política. É feito das própria referências a um legado cultural e um destino comuns. Em A Vida (Poemas Ibéricos) ao referir os povos vasco, andaluz, galego, asturiano, catalão e português, esquece os castelhanos. Colocando os heróis lado a lado, chama desumano e brutal a Cortez, enquanto de Albuquerque parece apenas que chora o seu chorar:                                

(...) Por isso a Índia há-de acabar em fumo
Nesses doirados paços de Lisboa; 
Por isso a pátria há-de perder o rumo 
Das muralhas de Goa.

Publicado antes do livro, nos Poemas Ibéricos sobressairá o que dedica a Lorca. Antecedendo o prefácio da sua mulher à edição bilingue (português e castelhano em tradução de Eugénio de Andrade), Torga diz trazer torgas à rosa de Granada e que virá enquanto houver poesia, vida e povo na Ibéria.

 

  COIMBRA E A TRADIÇÃO

 

 

Torga valoriza e desvaloriza Coimbra. Entretanto, o que está a acontecer no resto do mundo?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Coimbra é uma das ligações de Torga à vida. Aí estuda e, depois de 1939, aí exerce medicina, aí vive, aí a sua actividade criadora se revela como vulcão em permanente actividade. Tem as suas tertúlias e os seus amigos e passa todos os dias umas horas de cavaqueira com o seu amigo João Fernandes, antes de chegar ao Central, à Brasileira ou ao Arcádia.

Coimbra suscita-lhe sentimentos opostos: paixão e timidez, a humildade e a desumildade, a (des)valorização do que está próximo.

As suas posições políticas ligam-se aos seus conceitos criticas quanto ao ensino universitário de então. A Universidade, casarão para ensinar camponeses (...) defende-se de toda a originalidade ou pensamento subversivo (...). A mistificação da borla e capelo.

Devoto de tudo o que é belo e monumental, no seu Portugal não tem uma palavra para a Igreja de Santa Cruz, para a Sé Velha, Almedina, Igreja de Santiago. Ou para as ruelas da Baixa, com o seu encanto especial que não deixa ninguém indiferente.

Começa o capitulo que lhe dedica com uma citação do que Eça põe na boca do conselheiro Acácio, chamando-lhe odalisca reclinada nos seus aposentos...

tradição parola explica este estado de espírito. Mais longamente exposto em trecho intitulado A Formatura transcrito em Memórias de Alegria, volume antológico organizado por Eugénio de Andrade, onde se fala das praxes e tradições do meio académico. Sempre as combateu abertamente. À capa e batina, símbolos anacrónicos, chama farda.

Crime de lesa praxe, efectua o seu acto de formatura com o seu fato banal. Não evita que as suas vestes, conforme o costume, sejam rasgadas e destruídas pelos colegas.

Embora amaciada, esta aversão mantém-se. A Queima das Fitas, em 1957, é um dos seus aniversários fúnebres...

Mas Coimbra é um dos seus amores. Aí vive, trabalha e passa o seu tempo. A mais bela cidade do pais", (...) cenário para um perpétuo renascimento do espírito.

 

  POLÍTICA E POLITICOS

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Não é fácil, com rigor, situar Torga politicamente. Antes do 25 de Abril, sem dúvida é um homem da oposição, do "contra".

Várias prisões e algumas das suas obras apreendidas.

Viajando a Paris aí convive com exilados que, em grande número, virão a constituir o Partido Socialista. Sugerem-lhe que com eles fique. Recusa com o argumento de que não se ajustará à distância do Pais.

Volta, é preso pela polícia política, e encerrado no Aljube.

O passaporte é-lhe negado várias vezes.

Preside á primeira reunião do órgão regional do Centro do Partido Socialista. Esclarece que não é filiado, e que o faz na qualidade de homem socialista que sempre foi. É mais sensível a uma ética do que a uma ideologia, mais (...) fraterno que disciplinadamente correligionário.

Afirma que não será com sistemas e métodos alheios (...) que permaneceremos de bem com o nosso semblante constitutivo e lançados na senda progressiva da democracia, (...) só o conseguiremos mediante soluções originais. (...) O capitalismo não hesita mesmo diante de um leito de sofrimento; aponta a sua incorrigível voracidade e, em outro trecho, vê raízes judaico-cristãs no comunismo.

Uns anos antes, a respeito dos intelectuais nos palcos da política, dissera: nada há de menos sociológico de que a aplicação a uma comunidade viva do estrito espírito do sistema. E acusa Sartre de ter posto o preconceito acima do conceito com o fim de promover a sua imagem, sem se importar de ter eventualmente corrompido gerações inteiras.

A sua manifesta impaciência para com os políticos e o seu distanciamento do poder, concilia-se com afirmações de que tem uma raiz anarquista. Os seus sentimentos políticos lembram um socialismo proudhoniano, com fortes interacções de um anarquismo nobre, profundamente humano, não violento. Sempre em oposição com o poder constituído, pelo que o poder representa de afastamento do humano que lhe serve de suporte.

O 25 de Abril, a par do sentido de libertação traz-lhe algumas desilusões - as perseguições, a procura de lugares. A política é para eles (os políticos) uma promoção e, para mim, uma aflição. Com ironia e descrença relata conversas que os políticos têm com ele, independentemente da convergência ou divergência no plano partidário.

Não apoia nem tem a mínima simpatia pela União Europeia. Ela ofende o seu espirito patriótico e o seu ideal de Pátria. É o repúdio de um poeta português pela irresponsabilidade com que meia dúzia de contabilistas lhe alienaram a soberania(...) e Maastricht há-de ser uma nódoa indelével na memória da Europa. Exulta com o não dos dinamarqueses ao primeiro referendo.

Sobre a regionalização, pergunta: o mundo a braços com o drama das diversidades e nós, que há oitocentos anos temos a unidade nacional no território, na língua, nos costumes e na religião, vamos desmioladamente destruí-la?







Memória: José Hermano Saraiva (1919-2012)


Cresci a ver José Hermano Saraiva na televisão, com o seu poder de comunicação invejável e a sua abordagem da(s) história(s) de Portugal de maneira inconfundível, mesmo sabendo que, por vezes, alguma dose de ficção a integrava. Cresci a admirá-lo, mesmo porque, entre outras capacidades, teve a de tornar a história e a nossa identidade muito mais próximas de nós.
Tivemos três encontros. Um, numa Feira do Livro, em Lisboa, quando me autografava um livro, que, ao abri-lo por acaso, foi parar a uma fotografia de uma torre de antiga casa senhorial, ali para os lados de Arcos de Valdevez. Disse-lhe que conhecia, que tinha lá estado havia pouco tempo e logo ele lamentou algo do género, por causa de algumas das pedras das ameias que lhe faltavam: “Está a ver esta torre? O que lhe parece?” Hesitei, mas ele atalhou: “Não a acha uma boca desdentada?” E logo ali entabulámos curta conversa sobre o património que se degradava.
O segundo ocorreu uns anos depois, quando o convidei para vir à minha Escola falar sobre Camões e o sobre o Renascimento. Foi uma tarde intensa de cultura, com os alunos presos ao discurso e às histórias, ressaltando um Camões de carne e osso, num trajecto que foi mais o passeio de um humanista sobre as pedras da história e sobre os recantos da arte. Muito tempo passado, os alunos ainda recordavam o fulgor daquela lição de saber…
O terceiro aconteceu há cinco anos, quando foi inaugurado o monumento a Sebastião da Gama, em Azeitão. Hermano Saraiva cruzara-se com o poeta nos corredores da Faculdade e conheciam-se. Integrou a Comissão de Honra desse monumento, mas, por razões de saúde, não pôde estar presente no evento, que ocorreu em 9 de Junho de 2007. Visitei-o posteriormente na sua casa de Palmela, onde tivemos uma conversa longa sobre Sebastião da Gama e sobre história. O encontro terminou com uma narrativa sobre a forma como uma imagem de S. Tiago em pedra ali fora parar à sua casa, onde cada recanto tinha uma história…
Foram três bons momentos de aprendizagem, além daqueles que, na televisão, proporcionou. São boas memórias. Ficam-me ainda os livros – incluindo a sua autobiografia que o semanário Sol publicou há uns anos – e as imagens. Fica a memória.








O Milagre das rosas (Rainha Santa Isabel)

 

A mulher de D. Dinis, a rainha Santa Isabel, tornou-se célebre pela sua imensa bondade. Ocupava o tempo a fazer bem a quantos a rodeavam, visitando e tratando doentes, distribuindo esmolas pelos pobres.

Ora, conta a lenda que o rei, já irritado por ela andar sempre misturada com mendigos, a proibiu de dar mais esmolas. Mas, certo dia, vendo-a sair furtivamente do palácio, foi atrás dela e perguntou o que levava escondido por baixo do manto.

Era pão. Mas ela, aflita por ter desobedecido ao rei, exclamou:

- São rosas, Senhor!

- Rosas, em Janeiro?- duvidou ele.

De olhos baixos, a rainha Santa Isabel abriu o regaço - e o pão tinha-se transformado em rosas, tão lindas como jamais se viu.

 

Romance da Rainha Santa Isabel

 


Peço graça com fervor

Do divino Manuel,

Para que haja de rezar

Da Rainha Santa Isabel:

Em Saragoça nascida,

Segundo a oração diz,

Foi rainha mui querida,

Mulher d’el-rei Dom Dinis;

Aos pobres socorria

Com entranhas do coração;

Pois de ninguém se fiava,

Sua esmola apresentava

Com a sua própria mão.

Vindo a “santa” um dia,

Com seu regaço ocupado,

Pelo tesouro que havia,

Com el-rei eis encontrada!

«Que levais aí, Senhora?

Levo cravos e mais rosas,

Para mais nossa alegria.

Bem sei que levais dinheiro,

Segundo sois costumada;

Antes que muito me cheira,

Rosas em Janeiro,

É de maravilha achá-las!»

A Senhora

O seu regaço lhe amostrou,

Cravos e rosas achou,

Um cheiro que admirava.

«Ó rainha excelente!

Meu tesouro podeis dar,

Minha coroa empenhar

Porque tudo estou contente.»

Estando a “santa” um dia

Na sua sala sentada,

Chegou-lhe um pobre chagado,

Se o podia arremediar;

Ela lhe disse

Com palavras de amor:

«Mandarei chamar o doutor,

Que vos haja de curar.

Senhora, se queredes

Ter o vosso coração inflamado,

Deitai-me na vossa cama,

Que eu serei remediado.»

A Senhora

De pés e mãos o lavou,

Na sua cama o deitou.

Um cavaleiro, que no paço

Havia encontrado,

A el-rei tudo é contado.

Vindo el-rei muito agastado,

Com tenção de a matar,

Contra a clemência que usava;

Na cama onde repoisava

Deitar um pobre chagado.

A Senhora correu o cortinado,

Achou Jesus crucificado!

Muito chorou o rei com ele

Dos milagres, que ela tinha obrado.

Em Estremoz acabou

Em Coimbra está sepultada,

No convento que formou

De Santa Clara sagrada.


 

n Romanceiro e Cancioneiro Popular Português

 

 

A história de Inês de Castro

 

Inês de Castro veio para Portugal como dama de honor de D. Constança, mulher do Infante D. Pedro, filho de D. Afonso IV A sua extraordinária beleza perturbou irremediavelmente o nosso futuro rei, que por ela se apaixonou, causando grande escândalo no País. Via-se nessa ligação não só um perigo para a independência nacional, pois Inês de Castro era descendente de importantes famílias nobres castelhanas, como também a possibilidade de os seus filhos poderem vir a governar Portugal, em vez do herdeiro legitimo, D. Fernando.

Pressionado pelos seus conselheiros, o rei D. Afonso IV tomou, então, a decisão de acabar com a vida da bela Inês. Ao saber da violenta morte da sua amada, D. Pedro reuniu os seus homens de armas e incansavelmente procurou os assassinos por todo o País. Estes foram supliciados com requintes de crueldade, como conta Fernão Lopes:

«... a um mandou tirar o coração pelos peitos e a outro pelas espáduas;…enfim mandou-os queimar ... ».

Ainda segundo os cronistas, após ter subido ao trono, D. Pedro I teria mandado desenterrar o cadáver de Inês de Castro e tê-la-ia coroado rainha, obrigando depois os seus súbditos e conselheiros a beijar-lhe a mão.

Os túmulos de Inês e Pedro encontram-se frente a frente, no mosteiro de Alcobaça para que, no dia do Juízo Final, logo se reencontrem.

 

 

 

Literatura mexicana

 

 

Conheça um pouco dos grandes escritores da literatura mexicana:

Octavio Paz:

Poeta, ensaísta, tradutor e diplomata mexicano que foi grande destaque na poesia moderna e de vanguarda. Em 1990, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura. Em 1990, morou em Paris, quando conviveu com os artistas surrealistas, como André Breton. Suas obras mais importantes são El Laberinto de la Soledad (1950) e Sor Juana de la Cruz o las Trampas de la Fe (1982).

 

·         Salvador Elizondo:

Influenciado por James Joyce e Ezra Pound, o mexicano Salvador Elizondo foi considerado o escritor mais original e vanguardista da geração dos anos 60 em México. Em 1965 recebeu o Prêmio Xavier Villaurrutia por sua novela Farabeuf, um livro desconcertante que narra uma tortura grotesca, na qual um sujeito é cortado em cem pedaços até a morte.

 

·         Carlos Fuentes:

Um grande escritor mexicano que chegou a lecionar em Harvard, Cambridge e Princeton. Em 1987, ganhou o Prêmio Miguel de Cervantes (1987) e o Prêmio Príncipe das Astúrias (1994). É um intelectual consagrado e autor de diversos romances, contos, teatros e ensaios.

 

 

·         Juan Rulfo:

Membro da Academia de Letras Mexicana e ganhador de vários prêmios literários, como o Prêmio Príncipe de Astúrias (1983), Juan Rulfo publicou apenas dois livros: El llano en llamas (1953) e Pedro Páramo (1955). É o grande precursor do chamado Realismo Mágico latino-americano, um movimento que contou com integrantes como García Márquez, Jorge Luís Borges e Julio Cortázar.

 

 

·         Mariano Azuela:

Foi o escritor mais famoso e reconhecido durante o período da Revolução Mexicana. Estudou medicina e depois de participar do conflito da queda do governo de Francisco I.Madero e do golpe de Victoriano Huerta, adota tons amargos e irônicos em suas obras. Incluindo sua obra mais célebre, chamada de Los de Abajo, de 1915.

 

 


publicado por luiscatina às 15:04

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