Abril 12 2009

Mero palpite altera História de Portugal (IX)
Carta Aberta ao Presidente da República
Barroso da Fonte
 
Senhor Presidente:
A sua eleição para o alto cargo que ocupa constituiu para mim, simples eleitor, uma das maiores alegrias desde o 25 de Abril de 1974. Como jornalista nunca escrevi uma linha que fosse a seu respeito, com receio de lhe retirar votos.


Antevia que não precisasse desse apoio. Nascemos no mesmo ano. Ambos fomos alferes milicianos, o Senhor em Moçambique, eu em Angola. Ambos começámos a trabalhar em crianças, o Senhor em Boliqueime, no Algarve, a ajudar o seu Pai na venda de gasolina e nos campos. Eu, como pastor da vezeira, no extremo Norte de Portugal. Mais tarde, era V. Excelência Primeiro-ministro e eu simples estudioso da biografia de Cabrilho, descobridor da Califórnia. Foi na primeira visita que fez a Montalegre para inaugurar a estátua desse Barrosão que enriquece a História de Portugal; e teve a paciência de ouvir-me, em pleno sol de Junho, acerca do trajecto desse aventureiro que deu «novos mundos ao mundo», ao serviço de Espanha. A Câmara convidara-me para ser o orador oficial da cerimónia e, como não se preveniu contra o sol, suportámos todos esse mês de inferno que o ditado Barrosão consagrou no Seringador climático: nove meses de Inverno e três de inferno.
Depois desta apresentação quero dizer-lhe, Senhor Presidente da República, que ao aceitar, de imediato, no mesmo dia em que foi convidado, para vir a Guimarães dia 24 de Junho, presidir às Cerimónias dos 900 anos do nascimento de Afonso Henriques, oficializou uma verdadeira «fraude histórica». Como o comunicado da Lusa foi divulgado às 18h36 do dia 1 de Abril, ainda pensei que «fosse a peta» da data. Infelizmente não foi e, talvez por ser mal aconselhado pelos seus colaboradores para a cultura, perpetrou um erro histórico que manchará a sua passagem pelo mais alto cargo da Nação Portuguesa que Afonso Henriques traçou a golpes de espada.
Na série de apontamentos que tenho vindo a publicar na imprensa regional, com o antetítulo em epígrafe, já eu previa essa rasteira em que ia tropeçar, para desgraça de um dos países mais velhos da Europa e da própria Lusofonia que Fernando Pessoa tratou como sinónima da «Pátria Portuguesa».
Eu sei, Senhor Presidente, que Portugal vai de mal a pior e que os Portugueses de hoje já suspiram pelos heróis de ontem. Certamente tem outros problemas, igualmente, graves para resolver. E, aceito que tenho anuído, prontamente, pensando que esse acto era consensual. Puro engano! O convite levava «água no bico». E, talvez inadvertidamente, cometeu um erro grave que já não poderá corrigir. Se ainda ninguém lho explicou, vou tentar explicar-lhe em poucas palavras:
Primeiro: Portugal nasceu na Batalha de S. Mamede, em 24 de Junho de 1128, embora só em 1179, a Santa Sé tenha reconhecido a sua independência. Quem travou essa batalha foi Afonso Henriques, filho de D. Teresa e do Conde D. Henrique, titulares do Condado Portucalense que o pai da noiva lhes doou, como dote de casamento, possivelmente em 1096. D. Teresa teria nessa altura cerca de 5 anos. Os condes decidiram fixar residência na Torre de Menagem, no Castelo de Guimarães. Ainda recentemente foi eleito como uma das sete maravilhas de Portugal, sendo conhecido pelo «Castelo da Fundação». E também, recentemente, Afonso Henriques foi eleito como o maior Português de todos os tempos. Inicialmente o Condado Portucalense era delimitado pelo Rio Minho e pelo Rio Douro. D. Teresa só teria idade núbil por volta de 1110 ou 1111. Mas nunca nenhum historiador negou que os Pais do nosso Primeiro Rei tenham fixado residência em Guimarães. Sabe-se que tiveram 3 filhos, um dos quais foi Afonso Henriques. Era a partir de Guimarães que o Conde D. Henrique e sua Mulher D. Teresa geriam os destinos do Condado. Como V. Excelência gere hoje o seu mandato a partir de Belém. Só os cavalos deram lugar aos automóveis e aviões. Em tudo o mais era ontem, como é hoje.
Segundo nunca, até hoje, alguém negou que Afonso Henriques tivesse sido baptizado na Capela de S. Miguel, junto castelo (onde terá nascido).
Terceiro: Em quase nove séculos de História nunca foi encontrada qualquer certidão de nascimento ou de baptismo, pelo que perdura a tradição de que A. Henriques nasceu em Guimarães, em 1111, data que consta na Crónica dos Godos, o mais antigo documento que se conhece.
Quarto: em 1911 Guimarães celebrou, com pompa e circunstância, os 800 anos do nascimento do Rei Fundador. Há relatos e cartazes indesmentíveis.
Quinto: No chão do Largo do Toural, em pleno centro de Guimarães, quando transferiram a Estátua de Afonso Henriques para junto do Castelo, cravaram nesses alicerces as datas em romano: MCXI – MCLXXXV (1111-1185).
Sexto: em 1990 um historiador interpretou, erradamente, a data: «MCXv» que consta do Livro Preto, fls.28 v-29, como sendo «Agosto de 1109». E a partir desta inverdade construiu a chamada «tese» de Viseu que levou a Câmara daquela cidade e a de Guimarães, por arrastamento, a anteciparem em dois anos o nono centenário.
Sétimo: enquanto a Comunidade Científica não demonstrar a autenticidade dessa teoria é a tradição que manda. E a tradição, em Portugal, como em qualquer parte do mundo «ainda é o que era».
Senhor Presidente:
Se V. Excelência vier a Guimarães proclamar o 24 de Junho como Dia Um de Portugal faz bem. Se vier confirmar a fraude histórica acima descrita, cometerá um erro que os verdadeiros Portugueses nunca lhe perdoarão.
Respeitosamente

publicado por luiscatina às 16:21

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