Abril 03 2009

 

SECÇÃO: Opinião

FACTOS + factos ... e contra factos não há argumentos ...
Mero palpite altera história de Portugal
(VIII)
 

 


Ao contrário do que inicialmente pensei, esta sequência de artigos com o mesmo título e sobre o mesmo tema, tem tido uma grande repercussão entre os leitores deste jornal.

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Chegam-me de todo o lado reacções positivas, demonstrando que o assunto é pertinente e que só de pessoas mal intencionadas podem advir palpites cujo intuito deve consistir em subverter a História que, como um leitor afirma: «essa gente já deu cabo de tudo, pôs o país a pedir e tenta, agora, destruir a História que ainda é um Património que nos dá alguma dignidade. Se não houver vozes atentas, combativas e moralizadoras, cairemos no descrédito internacional que é o que falta para desgraça de tantas gerações que lutaram e que passam a ser a vergonha de muitas outras que nos hão-de substituir».
Da Beira contactou-nos «Portal Viseu», um blog com grande repercussão que nos disse só agora ter acesso a esta nossa fonte. Logo transpuseram o sétimo artigo e nos garantiram que esse Portal tem mais de 30 mil utilizadores online por mês, tendo ainda um jornal impresso com uma tiragem de 5000 exemplares. Colocaram-nos quatro questões às quais, de imediato, respondemos. Em síntese pretendemos reafirmar que Almeida Fernandes foi um prestigiado medievalista que terá procurado fazer melhor do que muitos outros, mas caiu no erro em que outros respeitados investigadores já haviam caído. Ou sejam consultam fontes que exigem um bom domínio do latim e da paleografia.
Avelino de Jesus Costa que foi das personalidades mais cultas da segunda metade do século XX e que, em 1999, conseguiu reunir num volume -o chamado Livro Preto - 663 originais dos séculos XII e XIII, e que, de certa forma, condensam tudo aquilo que de mais importante existia na Torre do Tombo e no Arquivo da Universidade de Coimbra. Esse Cartulário da Sé de Coimbra, é hoje um documento indispensável para quem quiser trabalhar a História Medieval. É uma edição crítica com texto integral, cujo director e coordenador Editorial foi o Prof. Manuel Augusto Rodrigues e Director Científico o Cónego Avelino de Jesus da Costa. Fez-se uma tiragem de dois mil exemplares e sabemos que o volume pode ser adquirido no Arquivo da Universidade de Coimbra.
A respeito da datação, elemento básico para qualquer investigador, Avelino J. Costa afirma no intróito: «é uma das dificuldades colocadas pelos documentos do Livro Preto». Diz mais: «alguns diplomas deste cartulário apresentam uma cronologia expressa que, na maioria dos casos, por incúria do copista, pode induzir em erro e levar alguns investigadores a considerar aqueles diplomas como falsificações. A preocupação de rigor no que toca à datação dos documentos do Livro Preto é ilustrada pelo empenho que estudiosos como Pierre David, Rocha Madahil, António de Vasconcelos, Alfredo Pimenta, Emílio Sáez, Rui de Azevedo, Gérard Pradalié e Pilar Blanco Lozano, entre outros, demonstraram ao pôr em evidência, de modo claro, através da crítica interna e externa do documento, a incompatibilidade existente entre a data expressa e os acontecimentos nele relatados». Avelino Costa chegou a escrever «as normas gerais de transcrição e publicação de documentos e textos medievais e modernos que já vai na 3ª edição.
Nota-se, à vista desarmada, que Almeida Fernandes foi mais um desses autores que esbarrou com tal dificuldade. E é por isso que antes de festejar eventuais erros humanos, com pompa e circunstância políticas, era prudente esperar pela maturação que a obra humana exige. Sobretudo a História que não deve ser repentista mas fixada para além de quem a escreve. Temos estado à espera de obter a confirmação da tradução fiel deste documento que terá induzido em erro o prestigiado medievalista Almeida Fernandes. Quando as «kalendas» mencionadas no documento que gerou a confusão forem cientificamente aclaradas teremos ensejo para dar o diferendo por terminado.
Até lá voltamos a José Mattoso e às suas contradições, nas quais, os aderentes à «tese» Viseense se apoiaram, realçando uma frase descontextualizada. Dão grande peso a essa frase que, desgarrada, pode convencer incautos. Ora já aqui referimos isso, apelando aos incrédulos a lerem toda a página 18 da obra onde fez essa afirmação. E mais algumas. Na p. 16, por exemplo, escreveu: «uma boa parte deste livro foi redigido em Timor, onde, como é evidente, me faltavam muitos elementos para resolver as dúvidas que constantemente me assaltavam... Uma última palavra para dedicar este livro à memória de Luís Krus. Era ele quem deveria redigi-lo. Tenho a honra de dizer que sou uma segunda escolha». Fica claro que José Mattoso, durante toda a vida de investigador fustigado por Almeida Fernandes, foi confrontado com o convite para escrever a Biografia de Afonso Henriques, quando se encontrava em Timor, para onde fora prestar serviço voluntário, durante anos. Falecendo, entretanto, Luís Krus que havia sido a primeira escolha para tal tarefa, Mattoso reconhece que não dispunha de fontes que são a ferramenta indispensável de um qualquer investigador sério. Como poderia ele produzir um trabalho rigoroso, a respeito de uma personalidade tão complexa? Tendo falecido, pouco tempo antes, o seu principal contestatário (AF), que acabara de «descobrir a bomba atómica» sobre o local e o ano de nascimento dessa eloquente figura histórica, talvez Mattoso, como frade que havia sido, entendesse prestar-lhe essa homenagem, numa espécie de piedade cristã. Na vasta obra que até essa altura escrevera, nunca aventou tal hipótese. Pelo contrário: sempre defendera Guimarães ou Ribadouro. Distante da Pátria e a muitos milhares de quilómetros dos arquivos, optou por passar ao papel, sem qualquer confirmação, o mero palpite do seu adversário de sempre. Se a História não fosse uma ciência séria, daria para gargalhar do «milagre do Oriente».

(Texto  de autoria de Barroso da Fonte)

publicado por luiscatina às 19:13

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