Julho 24 2009

Barroso da Fonte
A canonização de Nuno Álvares Pereira (em 26 de Abril passado) não mexeu com o país, por razões pouco compreensíveis. Mas deveria mexer com os quatro concelhos que mais de perto partilharam o orgulho de ter esse gigante da Portugalidade, como filho adoptivo. Aconteceu isso entre 1376 e 1401, há 633 anos, portanto. Mas se desse facto nunca os concelhos envolvidos tiraram qualquer proveito histórico-cultural, seria curial que se fizesse, agora que o herói de tantas e de tão decisivas batalhas, foi reconhecido mundialmente, como Herói e como Santo. Não é vulgar que um militar destemido, comandante de exércitos armados, tanto para matar como para morrer, seja proclamado santo.

Nuno Álvares Pereira, filho de um Prior (do Crato) que teve 32 filhos de três mulheres, casou, quase obrigado pelo pai, com a Barrosã (de Reboreda- Salto- Montalegre) Leonor Alvim. Tinha ele 16 anos de idade. E nessa altura já a noiva era viúva (embora donzela), de Vasco Gonçalves Barroso, um ricaço da região de Basto que fora proprietário do importante Mosteiro de Refóios (hoje Refojos). Não se conhece em que ano ela nasceu. Mas embora mais velha do que o segundo marido, não iria além dos 35/40 anos, na medida em que ainda concebeu três filhos: dois rapazes que faleceram e D. Beatriz, mais conhecida pelo diminutivo Brites. Sabe-se que o casamento foi em Frielas (Azambuja), em 15 de Agosto de 1376. Fixaram residência no lugar de Pedraça, actual concelho de Cabeceiras de Basto, numa casa brasonada que pertenceu a Vasco Gonçalves Barroso, um nobre que fora cabo de guerra no tempo de D. Afonso IV. Este rico-homem que fora militar, era filho de outro rico-homem de nome D. Egas Gonçalves Barroso que se celebrizara no reinado de D. Sancho II e que aparece como sendo o tronco da Família dos Barrosos.
Leonor Alvim era filha de João Pires de Alvim e de sua mulher D. Branca Pires Coelho. O topónimo Alvim era o lugar que mais tarde entraria no apelido do proprietário Pedro Soares de Alvim, casado com Maria Esteves. Ao tempo, Alvim pertenceria ao concelho de Celorico de Basto. Mais tarde, com uma nova divisão administrativa, passou para o concelho de Cabeceiras, tal como Boticas que pertencia ao concelho de Montalegre; e só em 1836, tal como o Couto de Dornelas, transitou para o concelho de Eiró, hoje progressiva Vila de Boticas, sede do novo concelho das Terras de Barroso.
Nuno Álvares Pereira que casou contrafeito e pobre, num casamento de conveniência arranjado pelo Pai que desejava ver bem casados os 32 filhos, depressa enriqueceu: em primeiro lugar pela fortuna da Mulher que herdara do primeiro marido as vastas terras de Barroso e as honrarias do Castelo de Montalegre, de que era alcaide. Era também o donatário do importante Mosteiro de Refojos. Em segundo lugar porque o então Mestre de Aviz, ascendeu a Rei (D. João I) pela grande influência de Nuno Álvares Pereira, de quem viria a ser o braço direito. Essa importância seria traduzida em terras, títulos e privilégios que cumularam de poderio o casamento da filha de ambos: Brites Alvim, com D. Afonso. Esse casamento realizou-se em 1401 e o jovem casal fixou residência em Chaves, onde hoje funciona o Museu de Arqueologia. Em 1112 (?) D. Brites morreu de parto e foi sepultada em Gaia. D. Afonso deixou Chaves e, depois de ir à Tomada de Ceuta (1415), com o sogro, Pai e irmãos («Inclita Geração»), mandou construir o Paço de Barcelos e o Paço Ducal de Guimarães. Esse casamento, por inspiração de Nuno Álvares Pereira, gerou a poderosa Casa de Bragança que entre 1640 e 1910, forneceu os reis que Portugal teve.
A canonização desse grande vulto da Historiografia Portuguesa teve um enorme significado para o nosso país. Mas sobretudo para a Região onde ele concebeu os filhos, onde sonhou a Casa de Bragança e onde chegou a receber o próprio Rei que o procurava para se aconselhar. Pedraça e todo o roteiro telúrico e sentimental entre essa freguesia e a de Salto (à qual pertence Reboreda), não esquecendo Chaves, deveria irmanar as quatro autarquias: Cabeceiras, Chaves, Boticas e Montalegre. Não será essa região nada que se compare com o Santuário de Fátima. Mas bem pode imitá-lo, à escala dos méritos dessa nobre Família: Leonor Alvim-Nuno Álvares Pereira.
Dia 31 de Maio, Salto deu um primeiro e importante passo. As entidades locais e concelhias, entenderam-se da melhor forma e fixaram o ponto de partida. Estive lá e fiquei maravilhado e orgulhoso com o simbolismo. Gostaria de ver as quatro autarquias a celebrar iniciativas conjuntas.
Recentemente foi editado pela Câmara de Cabeceiras uma excelente monografia sobre o Mosteiro de S. Miguel de Refojos - Jóia do Barroco em Terras de Basto, da autoria do Prof. Geraldo Amadeu Coelho Dias. Em 220 páginas de boa qualidade gráfica, se condensa a História deste Convento beneditino fundado no século XII e considerado Imóvel de Interesse Público pelo Decreto nº 23011 de 31-8-1933. Foi pertença de grandes personalidades, nomeadamente do primeiro marido da Barrosã Leonor Alvim. Mal soube desta publicação passei por Cabeceiras e bati à porta da papelaria do Albino que logo me pôs em contacto com Mamede Mendes, ilustre historiador local que me facultou utilíssimos elementos. No Turismo fui bem recebido. Sobre esta obra e sobre o que ela representa voltarei num próximo apontamento.

publicado por luiscatina às 18:56

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